CAPÍTULO 13 – SURPRESAS
- Hã? O que? – sentei e cocei os olhos para poder acordar.
- Você tem visitas querida. Se arrume e depois desça. – ela me deu um beijo na testa e depois saiu do quarto.
Levantei e tentei me recompor, tentando imaginar quem eram as pessoas que teriam vindo me ver. Sim, “as pessoas”, porque minha mãe havia dito visitas, certo? Eu não sabia ao certo, não conseguira ouvir direito o que ela disse, mas estava muito curiosa para descobrir.
Depois de estar devidamente apresentável, saí do quarto e desci as escadas. Quando entrei na sala, tive de me apoiar para não cair, tamanho choque que senti ao ver quem estava lá me esperando. Sentada no sofá estava dona Cláudia, a mãe de Felipe. Ela se levantou e sorriu ao me ver.
- Marina, que bom vê-la bem. – ela andou até mim e estendeu os braços para um abraço.
Eu a abracei, mas não estava entendendo nada. O que ela fazia ali e que receptividade era aquela? Eu não achava uma resposta. Ela pegou minha mão e me levou até o sofá.
- Pela sua cara vejo que está estranhando minha visita, não é? – ela disse e eu corei.
- Desculpe. É só que me pegou de surpresa. – ela riu de minha explicação.
- Está tudo bem. Eu entendo, não fui muito legal com você da última vez que nos vimos. – ela deu um sorriso amarelo.
- Ah! Não se preocupe. Não penso mais nisso. – tentei mudar de assunto – Quando chegou aqui?
- Ontem. Queria ter vindo antes, mas não pude. – ela respirou fundo – Marina, como você está, de verdade?
- Eu... – não conseguia falar direito, não entendia o que ela queria – estou confusa.
- Olha Marina, eu vim aqui, porque eu queria dizer que você tem meu total apoio. – agora sim eu estava confusa.
- O que quer dizer?
- O que Felipe está fazendo com você não tem perdão. Eu sei que no começo eu ia contra o namoro de vocês, mas ele escolheu você e tem que assumir as responsabilidades que isso trouxe. Eu quero que você saiba que eu vou estar aqui para o que você precisar.
Uma emoção muito forte atravessou meu coração e se instalou ali. Era tão bom ouvir aquilo, principalmente sendo dela. Eu me senti acolhida, me senti bem.
- Muito, muito obrigada. – eu disse enquanto uma lágrima escorria por meu rosto.
- Não tem nada para agradecer Marina. Apenas cuide bem de meu neto, ou neta. – ela sorriu colocando a mão em minha barriga.
Ficamos ali conversando por mais algum tempo até que alguém apareceu na porta da sala.
- Cláudia, porque não me esperou? – Fernanda, que parecia ter corrido falou.
- Achei que você demoraria no banho.
Fernanda revirou os olhos e depois olhou para mim, com um sorriso se abrindo nos lábios.
- Marina!
- Nanda! – levantei e fui até ela.
Era muito bom vê-la ali, me senti imediatamente feliz. Depois da conversa que tivemos, realmente passamos a gostar uma da outra. Não tínhamos mais nos visto desde então, mas mantínhamos contato, por telefone e pelo computador. Ela me apoiou muito quando os problemas começaram a aparecer e tinha me dito que mais dia menos dia apareceria ali para me ver.
- Que bom que está aqui. – falei com sinceridade enquanto a abraçava.
- Viu? Eu disse que viria! – ela abriu um largo sorriso.
- Sim, você disse. – eu ri. Eu me sentia tão bem agora que era fácil demais sorrir agora, mesmo depois da noite anterior... – Felipe não me contou que vocês estavam aqui.
- Nós pedimos a ele que não contasse. Queríamos fazer surpresa. – respondeu Nanda radiante.
- Pode ter certeza que fizeram. – as duas riram.
Convidei-as para almoçar ali e elas aceitaram, então passamos muito tento juntas, conversando sobre tudo, mas o assunto principal sempre era o bebê. Cláudia era a que mais falava nele e eu podia ver nela uma alegria em ser avó que eu nunca poderia imaginar. Eu sabia que meu filho poderia não ter o pai – cada vez que pensava nisso um pouco de minha felicidade ia embora –, mas sabia que teria suas duas avós por perto.
Minha mãe havia se juntado a nós em uma conversa no jardim sobre nomes para o bebê – eu realmente não andara pensando muito nisso. Ela olhou no relógio e pulou da cadeira.
- Marina, vá se arrumar logo, estamos atrasadas. – ela disse me puxando da cadeira.
- Atrasadas para que mãe?
- Ir ao médico. Você tem consulta. – ela virou para Cláudia – Venham junto, talvez descobriremos o sexo do bebê hoje.
Quando ela disse isso eu quase caí. Como assim descobrir o sexo do bebê? Já? Eu não sabia se estava preparada. Mesmo assim não havia outra saída, então fui para meu quarto, puxando Nanda pelo braço e me arrumei o mais rápido possível para não irritar minha mãe.
Ao entrar no carro lembrei-me de avisar Lisa, que ficaria brava se eu não avisasse e que eu sabia que chegaria ao hospital antes de mim. Depois de desligar o celular, pensei em outra pessoa a qual eu deveria ligar, mas eu não tive coragem e pedi para Nanda ligar para Felipe por mim.
Nanda ficou um bom tempo com ele no telefone e pelo jeito ela tentava convencê-lo de ir. Aquilo me desanimou ainda mais, mas eu tentei desviar essa ideia da cabeça e pensar no que mais importava agora.
Chegamos ao hospital e como eu previ, Lisa já estava lá. Minha surpresa foi em ver que Felipe estava lá com ela esperando. Pela sua cara ele não parecia muito confortável ali. Quando fui chamada para a consulta minha mãe se levantou para ir comigo e Felipe – com um empurrãozinho de Lisa e Nanda – nos seguiu.
A médica que me atendeu já era conhecida de muitos anos da família, então foi fácil ficar tranquila. Ela conversou rapidamente comigo e depois me levou até onde seria feita a ultrassonografia.
Foi fácil, eu tive apenas que ficar deitava enquanto a médica analisava o que via na tela. Eu não sabia dizer quem estava mais nervoso: eu, minha mãe ou Felipe. Nós três estávamos completamente atentos ao que a médica dizia ou fazia, e isso apenas nos deixava mais nervosos, pois ela pouco falou por um tempo. Depois ela olhou para mim e para Felipe e perguntou:
- Já pensaram em nomes?
Eu dei um sorriso amarelo e respondi:
- Não, ainda não.
- Então quando for escolher o nome pense em dois, um para menino e outro para menina.
- Sim, farei isso. – falei inocentemente, como se fosse algo normal de uma médica dizer.
- O que eu quis dizer foi que você precisará dos dois nomes. Parabéns, vocês terão um casal de gêmeos. – Ela disse sorrindo.
Eu não sabia o que fazer, o que dizer. Gêmeos? Como pode? Eu não sabia se ficava feliz ou triste. Olhei para Felipe. Ele me olhou de um jeito que eu não gostei, um olhar que eu não queria ver. Eu sabia o que aquele olhar significava, mas não queria, eu não podia acreditar que fosse verdade.
Felipe desviou o olhar e sem dizer nada saiu da sala, quase correndo. Eu queria chamar por ele, gritar por ele, mas não consegui fazer nada. De repente tudo se apagou a minha volta e eu não pude impedir que ele fosse embora.
- Eu não acredito que ele fez isso com ela. Nunca pensei que ele de verdade tivesse coragem de abandoná-la. – as palavras raivosas de Lisa me acordaram e trouxeram a verdade a minha cabeça. Eu comecei a chorar sem nem ao menos abrir os olhos.
- Nina, não chore princesa. Olhe para mim filha. – minha mãe dizia nervosa. Eu abri os olhos e encarei-a.
- Mãe, ele se foi! Ele realmente me deixou! – eu abracei-a e chorei em seus braços, sem mais forças.
- Fique calma filha, vai ficar tudo bem!
- Como vai ficar tudo bem? Não tem como. – minha voz soava como um sussurro.
Minha mãe esperou que eu me acalmasse e parasse de chorar para falar novamente. Ela sentou na minha frente e disse que Felipe havia deixado uma carta para mim que Fernanda havia encontrado em seu quarto. Provavelmente porque ele sabia que assim a carta chegaria até mim.
Elas me entregaram a carta e saíram do quarto – nem havia notado que estava em casa – para que eu pudesse ler sozinha a carta. Respirei fundo e abri o papel que estava dobrado e colocado dentro de um envelope.
Nina, dizia na primeira linha da carta. A letra estava tremida.
Eu simplesmente não sei explicar o porquê do que estou fazendo, mas vou tentar. Você mais que ninguém merece uma explicação, pois você é a pessoa mais importante da minha vida, mesmo que não acredite nisso. E não acho que deva... sou um grande idiota.
Quando você me contou que estava grávida eu perdi meu chão. Eu não consegui me imaginar cuidando de uma criança, tendo que formar uma família, pelo menos não agora. Então eu fiz a primeira burrada com você, e depois não parei mais.
Hoje, quando a médica disse que... eram duas crianças, eu fiquei pior ainda. Entenda, não tenho como dar nenhum tipo de futuro para você ou para essas crianças. E é por isso que estou indo embora. Não pense que está sendo fácil, é a pior coisa que já fiz em toda minha vida, mas não vejo outro jeito.
Entenda também que não estou fazendo isso por mim, estou fazendo por você e por... nossos filhos. Eles merecem muito mais do que a mim como pai. E você... você é a pessoa mais especial que já conheci e seu lugar é ao lado de um homem de verdade, que não seja tão covarde e que cuide de você. Eu irei agradecer a qualquer um que consiga colocar no seu rosto o sorriso que eu tanto amo.
Eu sempre a amei e sempre amarei. Amo você mais que tudo e todos. Nunca, nem por um segundo duvide disso. Por favor, se puder, me perdoe. Tenha toda a felicidade do mundo, a felicidade que eu não posso lhe dar. Espero que encontre alguém que a faça sorrir, embora eu nunca mais vá querer ninguém. Você é e sempre foi a única pra mim.
Me perdoe, Felipe.
Quase não consegui enxergar as últimas linhas da carta, devido a quantidade de lágrimas que caía de meus olhos. Eu tentava com todas as minhas forças entender e aceitar aquilo, mas eu não conseguia. Nada nem ninguém me fariam entender que ele havia me deixado de verdade, que dessa vez ele não voltaria.
Como as coisas haviam mudado de rumo tão rapidamente? Num momento eu era a pessoa mais feliz do mundo e tinha certeza que iria passar a vida toda com Felipe, meu primeiro e, eu tinha certeza, único amor. No outro eu estava a espera de duas crianças que eu não fazia ideia de como criar e Felipe havia me deixado.
A primeira coisa em que pensei foi
Como eu queria ficar com os olhos fechados e nunca mais ter de abri-los. Mas eu não podia. Tirei da minha cabeça a ideia de desistir e abri os olhos. O que eu via agora eram as paredes do meu quarto, que de repente pareciam sem graça. Além disso, eu podia ver o futuro que verdadeiramente eu teria. Era um futuro negro, que eu não gostava. E eu sabia que só eu poderia mudá-lo.
Eu tinha que encontrar forças para isso, para mudar as coisas. Não somente por mim, mas por meus pais, por Sophia, minhas amigas e meus filhos. Eles não mereciam sofrer as minhas custas, e eu ainda tinha muita vida pela frente, mesmo que ela não me importasse muito sem Felipe ao meu lado.
Mas antes de fazer qualquer coisa eu tinha que colocar a cabeça no lugar. Tinha que pesar minhas prioridades e as coisas menores. Comecei analisando a carta de Felipe. Se ele realmente ainda me amava e queria que eu fosse feliz, era isso que eu faria, por ele, pelo amor que sempre sentiria por ele.
Havia apenas uma coisa que mesmo se eu quisesse não aconteceria. Eu nunca pertenceria a outro. Nunca amaria outro e meu sorriso seria eternamente dele.