CAPÍTULO 16 – “LEMBRAR DE POR NOME”
Tudo bem, eu tinha que pensar rápido se não quisesse entrar para o ranking de pior mãe do mundo. Certo, o que a enfermeira acabara de dizer?? Já escolheu os nomes dos anjinhos? Anjinhos. Pode ser um começo. Ang... Ângela? Não. Angélica? Não. Hm, mas e que tal...
- Angelina, a menina se chamará Angelina. – falei, satisfeita por ter conseguido um nome que eu gostasse rapidamente.
- Angelina? É diferente, mas também é lindo. Eu gosto. – disse minha mãe, passando uma mão em minha testa.
- É lindo mesmo. E o menino? – questionou a enfermeira.
Decidi ignorar o fato de que ela estava sendo um pouco metida. Eu podia seguir a mesma linha. Então, Ângelo? Eu não gostava desse. E agora?
- Leonardo. Se você não se importar, eu gostaria que fosse Leonardo. – disse Felipe.
Eu fiquei completamente sem palavras. Eu não podia negar que achava esse nome lindo, e ele já o tinha citado algumas vezes. Mas eu não queria dar o braço a torcer. Se eu tiver um nome melhor...
- Eu acho que você não tem direito algum de dar uma opinião. – falou minha mãe, enfurecida.
- Mãe, por favor, pare. – respirei fundo – Leonardo é lindo, eu gosto. – ele sorriu para mim e eu virei o rosto.
- Marina...
- Mãe, chega! – a olhei pontuando o que tinha dito – É isso, está decidido.
- O que está decidido? – perguntou Lisa enquanto entrava com Nanda no quarto. A enfermeira aproveitou para sair.
Elas cumprimentaram Felipe, e eu notei que foi por ajuda delas e não de minha mãe que ele ainda estava ali. Ela fuzilava-o com os olhos e acho que ela queria tanto quanto eu que ele fosse logo embora. Mesmo não sendo pelo mesmo motivo.
Ele deve ter notado, pois quando as meninas chegaram perto de mim, ele disse:
- Acho melhor eu ir embora agora.
- Pois eu acho que você não devia nem ter vindo. – disse minha mãe.
Eu não consegui falar nada, ninguém conseguiu. Felipe assentiu e saiu. Senti uma profunda dor no peito, como se ele estivesse me deixando de novo. Respirei fundo, memorizando o cheiro dos bebês para deter a sensação. Era totalmente ilógica. Ele nem tinha voltado para mim de qualquer forma.
A enfermeira, que acompanhava tudo em silêncio, foi a primeira com coragem de falar.
- Bom, eu tenho que levá-los agora.
- Já? – reclamei, puxando-os para mais perto.
- Você tem que descansar querida, e eles estarão bem cuidados. – disse minha mãe.
- Tudo bem então.
Entreguei-os a enfermeira e minha mãe a acompanhou para fora do quarto.
- E então, como se sente? – perguntou Lisa quando elas saíram.
- Feliz, cansada... completamente confusa. – as duas riram de mim.
E eu estava muito confusa mesmo. Principalmente com o fato de Felipe ter aparecido ali. Eu quis tanto que ele estivesse ali, que era como se eu soubesse que ele viria. Mas como ele ficou sabendo que eu estava ganhando os bebês? Por pura intuição tenho certeza que não.
- Espere aí... – interrompi Fernanda que começava a falar. – Foram vocês, não é? Vocês avisaram a ele. – Agora eu tinha certeza, e as caras que elas fizeram só confirmaram minha afirmação.
- Ai Nina, ele me pediu para avisar e... – disse Nanda.
- Como é que é? – quase fiquei sem ar.
- Ele queria estar aqui Mari. – falou Lisa, tentando ajudar.
- VOCÊS TINHAM CONTATO COM ELE?
As duas se olharam e ficaram vermelhas de vergonha. Eu comecei a ficar muito irritada.
- Eu não acredito que fizeram isso comigo. Vocês sabiam para onde ele foi e não me contaram nada.
- Não foi assim Nina. Escute. Somos amigos a muito tempo e ele me pediu, quase ordenou que eu não contasse nada. Foi horrível para mim mentir para você, mas eu vi que você estava ficando melhor e achei que era a coisa certa. E Lisa também não tem culpa de nada. Ela apenas foi lá na casa dele e viu ele lá e... – ela parou, notando ter falado demais.
- Na casa dele? Ele estava lá o tempo todo? Era por isso que eu não podia ir lá, é óbvio. E você morando com ele.
- Não exatamente isso. Ele ficava pouco lá, arranjou um emprego. E o resto do tempo... ele tentava ver você.
Eu não conseguia falar, nem raciocinar, eu estava paralisada. Eu me sentia enganada, traída, como se fosse a única que não soubesse de nada. Mas eu não tinha raiva delas, eu podia entender. Era uma situação muito complicada. Fechei os olhos e encostei a cabeça no travesseiro.
- Mari, por favor, fala alguma coisa.
Respirei fundo e abri os olhos.
- Não estou brava com vocês. Eu, de certa forma, entendo. Eu só preciso absorver essa história toda, ok?
- Tudo bem. Nós vamos deixá-la descansar. Sua mãe deve estar aqui logo. – informou Nanda.
Assenti, e elas saíram. Fiquei aliviada de ficar um pouco sozinha. Minha cabeça girava de tanta informação nova e eu não sabia como ordená-las. O bom foi que eu estava tão cansada que peguei no sono antes mesmo de minha mãe entrar no quarto.
Quando acordei novamente, o quarto estava escuro e silencioso. Peguei o celular de minha mãe que estava em uma mesinha ao lado e olhei a hora. Eram 3 da manhã. Hm, eu tinha dormido por um bom tempo então. Avistei minha mãe dormindo desajeitadamente em um sofá cama. Eu a amava tanto. Tantas coisas eu já tinha feito, e mesmo assim, ali estava ela.
Recostei a cabeça e tentei organizar os fatos. Primeiro: Felipe tinha voltado, ou melhor, tinha me deixado vê-lo de novo, e eu não fazia ideia do porque disso. Segundo: isso resultaria em uma conversa que mudaria tudo, e eu devia estar preparada. Terceiro: agora eu tinha duas crianças que dependiam de mim. Quarto: eu tinha que fazer alguma coisa em relação a tudo isso, antes que eu ficasse completamente louca.
Os bebês eram a parte mais fácil. Eu já os amava completamente e daria tudo de mim a eles sem pensar duas vezes. O problema era o resto, que se resumia a uma palavra, ou melhor, um nome: Felipe.
Quando eu realmente achei que estava curada, ele volta do além. E eu sabia que ainda o amava intensamente, mas não podia me entregar. E eu nem sabia porque de fato ele estava aqui. Preferi acreditar que era só pelas crianças, afinal, como ele mesmo disse, eles são filhos dele também. Essa era outra coisa que não batia: não foi por causa deles que ele se afastou? Então, que sentido tem isso tudo?
Eu teria que deixar todas as perguntas para depois. Minha cabeça já girava novamente e eu estava tonta. Decidi respirar fundo e voltar a dormir.
Eu vi uma casa, vi a mim e a Felipe, vi também duas crianças brincando a nossa frente. Lembrei de já ter pensado nisso antes. Mas agora, esse sonho tinha uma certa esperança que eu sequer pensei em ter novamente.
Acordei assustada. Eu não podia criar um mundo de sonhos onde tudo era lindo quando a realidade não era essa.
Respirei fundo três vezes antes de abrir os olhos e notar que havia alguém ali. Meu pai estava de costas para mim, olhando algum programa na TV que estava num volume muito baixo. Permiti-me olhar a hora antes de falar com ele e me surpreendi ao ver que tinha conseguido dormir uma boa parte da manhã. Eram 9 horas. Ajeitei-me nos travesseiros e me fiz barulho para chamar a atenção do meu pai.
- Nina, meu amor, eu não vi que você tinha acordado. – ele veio até mim e beijou minha testa – Como se sente?
- Bem, de verdade. – sorri para ele – Você já os viu?
- Sim. – eu notei seus olhos brilharem como nunca antes – Eles são tão lindos.
Fiquei tão feliz com a reação dele que meus olhos encheram d’água e eu não consegui falar mais nada. Neste momento minha irmã entrou no quarto.
- Nina, como você está? Eu estava tão preocupada. Eu já vi os bebês, eles são tão lindos. E os nomes, nossa, eu amei os nomes Nina.
- É bom ti ver também Sophia. – eu ri, enquanto ela me dava um abraço.
- Boas notícias. Os bebês estão bem e vocês vão poder ir pra casa hoje mesmo. É ótimo, não é? – ela sorriu de orelha a orelha.
- Maravilhoso, eu odeio ficar aqui. – reclamei, recostando a cabeça.
O resto da manhã foi ocupado com entradas de enfermeiras que trouxeram os bebês, o que me acalmou e também comida. Não que fosse a melhor do mundo, mas era alguma coisa, e eu estava faminta. Foi tanta movimentação que me impediu de pensar e isso era muito bom.
Os bebês dormiam suavemente quando minha mãe chegou sorrindo, mas com um aspecto muito cansado. Eu tinha aprendido a respeitá-la muito mais e conhecido um lado novo nela que nunca havia visto e me encantou. Ela não desistia do que quer que acreditasse.
- Está pronta para ir pra casa princesa?
- Ah, por favor, tire-me daqui.
Ela riu, veio até mim e beijou minha testa.
Minha mãe me ajudou a me arrumar e recolher as coisas enquanto os bebês ainda dormiam. Foi extremamente difícil me movimentar. Eu não tinha noção do quão cansada estava, mas fiz um esforço.
Quando tudo estava pronto minha família fez questão de pedir uma cadeira de rodas para me levar para fora, o que achei um exagero, mas foi bom não precisar caminhar e pude levar Angelina e Leonardo no colo. As enfermeiras nos corredores sorriam para mim e eu sorria de volta, depois olhava para eles e sorria ainda mais. Como podiam ser tão perfeitos?
Meu pai me ajudou a entrar no carro e Sophia entrou atrás comigo. Eu só conseguia sorrir, e ela parecia irradiar a mesma alegria que eu. Deixei que ela levasse Leonardo pois, querendo ou não, uma hora eles acabavam pesando.
Quando chegamos em casa eu pedi que Sophia me desse Leonardo. Virei-os para o portão de entrada e sussurrei em seus ouvidos:
- Bem vindos ao lar.