CAPÍTULO 14 – RECOMEÇANDO
Mas eu queria com todas as minhas forças ficar bem, voltar a ter uma vida normal. E eu ia fazer isso. Eu merecia um futuro bom e meus filhos também. Então firmei essa decisão em minha cabeça e segui em frente.
A primeira coisa que fiz foi me concentrar novamente na faculdade. Eu sabia que dali a alguns meses eu teria que me afastar outra vez, mas eu tinha que me ocupar com alguma coisa. Apesar de a faculdade me lembrar muito de Felipe, eu gostava muito de estar lá.
O único problema era que eu não queria voltar sozinha. Lisa ia para a faculdade também, mas eu precisava que alguém estivesse durante a aula comigo. Então quando descobri que Fernanda fazia o mesmo curso que eu e que tinha planos de se mudar para minha cidade, implorei para que ela viesse logo.
- Por favor, eu faço o que for preciso, eu preciso que fique aqui.
- Nina eu queria esperar mais um pouco antes de me mudar de vez para cá.
- Esperar o que? Agora é tão bom quanto qualquer momento. Por favor!
Ela respirou fundo, pensou e finalmente sorriu.
- Tudo bem, você venceu.
Ela voltou para sua cidade para arranjar a transferência e pegar suas coisas, e uma semana depois estava tudo pronto. Eu ofereci a ela minha casa, mas ela insistia em ficar na casa que antes era de Felipe. Ela dizia que já que ele fora embora era melhor ela ficar por lá mesmo, sem ter que incomodar a mim ou a minha família. Cláudia a apoiava e até mesmo Lisa, então não tive o que dizer. Desde que ela estivesse ali eu não tinha do que reclamar.
Como eu imaginava foi um pouco triste ir a faculdade sem Felipe, mas eu afastei o sentimento que me dizia que eu precisava dele para tudo. Eu tinha de colocar na minha cabeça – e no meu coração – que daqui pra frente seria assim.
Na aula, me concentrei no que estava sendo explicado e, mais rápido do que eu pensava, eu estava completamente concentrada na matéria e apreendendo o que o professor dizia.
À medida que as aulas iam passando – e o tempo junto com elas – eu ia ficando mais forte, ia plantando uma nova felicidade em meu coração, diferente da que eu tinha antes, mas que também era muito boa.
Eu estava tomando as rédeas da minha vida outra vez, estava comandando-a novamente, e agora, eu sabia o que estava fazendo e sabia que era o certo. E eu estava feliz, contrariando o que eu pensava antes – que não havia felicidade sem Felipe.
E o melhor de tudo era que eu gostava mesmo de estar grávida, de saber que dali a alguns meses eu estaria com meus bebês em meus braços e poderia cuidar deles e eles seriam tudo na minha vida.
Nos dois últimos meses de gravidez me pus a fazer tudo que não havia feito nos primeiros em relação aos bebês.
Fui com minha mãe comprar berços, carrinhos, coisas para o quarto que ela sabia escolher melhor que ninguém. Nanda, Sophia e Lisa me ajudaram a escolher as roupinhas e coisas mais delicadas. Elas se deliciaram e me fizeram prometer que elas seriam madrinhas dos bebês. Teria que conciliar três madrinhas para duas crianças.
E os nomes. Nunca pensei que seria tão difícil decidir os nomes. Eram tantas opções e eu não podia colocar qualquer nome simplesmente por impulso, tinham que ser nomes que fossem escolhidos com cuidado, pois seriam sua identidade para toda a vida.
- Use nomes estrangeiros, eles são tão chiques. – falou Lisa. Estávamos em meu quarto colocando-o em ordem para a chegada dos novos moradores.
- Não. Nomes compostos, eles são mais fortes. – replicou Nanda.
- Ainda acho que deve usar nomes bem simples, para que seus filhos não sejam aberrações. – continuou Sophia.
- Ai filha, faça uma homenagem a seus avós, ou aos avós dos seus filhos. – falou minha mãe com os olhos brilhando.
- Ah! – gritei por fim. – Assim vocês não ajudam
Elas deram de ombros e continuaram com seus afazeres. Ao fim deste dia – e também de toda a semana – eu ainda não tinha escolhido os nomes.
Quando faltava um mês para eu ter minha gestação completa, o meu quarto tinha ficado pronto. Ele estava todo mudado agora. Minha cama estava ladeada pelos berços. Havia um cantinho todo especial que fora preparado pela minha mãe, onde ela colocara uma cadeira de balanço e brinquedinhos. A parede neste canto agora tinha um papel de parede com bichinhos estampados.
O meu closet tinha um espaço bem grande com roupinhas pequeninas e meu banheiro teve algumas melhorias que facilitariam os meus cuidados com as crianças.
Em toda a minha vida, eu nunca fora tão mimada quanto agora – e eu sempre fui muito mimada. Quando não eram meus pais, era minha irmã ou minhas amigas, e até Cláudia que ligava praticamente todos os dias pra saber como eu estava.
Eu estava cada vez mais ansiosa para o dia do nascimento dos meus bebês. Eu queria tanto saber como eles eram, tocá-los, segurá-los em meus braços, fazer tudo o que uma mãe deve fazer.
Toda noite, antes de dormir, eu ficava algum tempo passando as mãos em minha barriga, falando para os bebês, e esperando que eles dessem algum sinal, e às vezes eu os sentia chutar. Isso me acalmava, me dava paz e me fazia dormir muito melhor.
- Vocês serão tão lindos. Perfeitos. Espero que vocês se pareçam com o seu pai, ele é o homem mais lindo que já conheci. – eu disse a eles um dia desses.
Foi estranho para mim, mas não me doeu falar de Felipe. Deixou-me apenas um pouco chateada, mas nada que pudesse alterar meu humor. Eu falei com sinceridade, com carinho, de um jeito que não trazia a lembrança os sentimentos ruins que eu sentia.
- Quando vocês estiverem maiores, eu vou lhes contar tudo sobre seu pai. – eu sorri – Como ele era, o que ele costumava fazer e me dizer. Vocês nunca terão de sentir raiva. Eu prometo.
Não, eu não deixaria que eles tivessem raiva de Felipe. Eles não ficariam sabendo do que realmente aconteceu. Eles não precisavam saber. Ninguém mais precisava sofrer. E para falar bem a verdade, a essa altura, nem eu mais sofria tanto.
Eu estava vivendo um momento de tanta paz que nada mais importava. Não que eu tivesse esquecido Felipe completamente, mas demorou menos tempo do que eu esperava para a dor pela perda se tornar apenas uma saudade. Saudade de um tempo bom, como o que se sente pela infância.
O futuro era o que me importava agora. O meu futuro e o dos meus filhos. Cansei de esperar sentada que algo acontecesse e me mostrasse o caminho da felicidade. Eu iria atrás dela e a alcançaria, sem ter medo de lutar.
Coloquei isso tão forte dentro de mim, que até minha aparência mudou. Meu rosto tinha certo brilho, meus olhos perderam as terríveis olheiras que me assombravam e eu me sentia mais viva.
Sim, viva, finalmente eu “voltava” a estar viva!